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Esse sonho ainda é nosso
Estamos juntos de novo, já estava com saudades. Bem, vamos hoje relembrar um pouco dos
primeiros momentos do Comitê Paraolímpico Brasileiro. Lembrar é sempre muito bom!
Na sua criação o CPB viveu momentos de dificuldades, mas momentos também de muito charme,
onde cada passo dado era uma festa, tudo era novidade e considerado um desafio superado.
Tenho saudade do charme paraolímpico, lembro, como fosse hoje, a dedicação e o empenho do
primeiro presidente do CPB, o senhor João Batista Carvalho e Silva, que conseguiu transformar
o esporte paraolímpico de nosso pais. João e sua “trupe” levaram o esporte paraolímpico
nacional aos patamares mais elevados de nossa sociedade.
Lembro como fosse hoje, eu do lado do Pelé falando de esporte paraolímpico para os
jornalistas, inclusive vale lembrar que Pelé foi aos Jogos Paraolímpicos de Atlanta em 1996
acompanhando e dando prestígio à equipe paraolímpica brasileira.
Lembro também do João Batista sendo muito questionado, porque estava levando jornalistas para
a Paraolimpíada de Atlânta com dinheiro do CPB, ao invés de investir este dinheiro nos
atletas. João sabiamente respondia: “O que adianta fazermos esporte para nós mesmos, temos é
que dar visibilidade ao nosso esporte”. Tacada certeira do João, esta visão empreendedora,
mudaria, então, o olhar da nossa sociedade para as pessoas com deficiência do nosso país.
Não tínhamos grana para tocar nosso esporte, naquela época não existia Lei de incentivo,
muito menos patrocinador. Quem ajudava nesta época era a Andef, mas tinha uma coisa muito
maior e mais importante, tínhamos SONHOS, sonhos com ação é claro, foi então que foram
surgindo os primeiros apoios e o patrocinador oficial chegou, o famoso Banco do Brasil.
A delegação chegou a vestir Nike nos uniformes paraolímpicos, chegamos a ser recebidos por
presidentes da Republica, como por exemplo, Fernando Henrique Cardoso, em 1996. Antes de
viajarmos para Atlanta, ele nos recebeu em Brasília e eu presenteei o presidente, com o
uniforme da delegação paraolímpica brasileira.
Ë importante mencionar também alguns atletas que ajudaram nesta importante empreitada,
abdicaram de suas vidas particulares e se doaram para o desporto paraolímpico, sem receber
absolutamente nada, na esperança de consolidar o nosso esporte paraolímpico, são alguns
deles : Adria Santos, Luis Cláudio Pereira, Douglas Amados, Tita, Sueli Guimarães e eu mesmo,
Anderson Lopes. Nesta empreitada, claro que teve apoio de outros atletas também, cada um em
sua região, mas estes atletas mencionados participaram mais freneticamente das iniciativas do
Comitê Paraolímpico Brasileiro.
Bem, termino afirmando que hoje o Comitê Paraolímpico tem muito dinheiro e patrocinadores,
mas infelizmente nenhum grande patrocinador privado. Continuamos com os patrocinadores
públicos: Caixa Econômica Federal e Lei federal Agnelo / Piva, basicamente. Os atletas
possuem bolsa atleta, tudo uma maravilha, mas falta glamour, falta história, falta clareza,
falta informação, falta base, falta profissionalismo, falta dedicação, falta empenho, falta
funcionários do CPB que sejam pessoas com deficiência, em fim, falta liderança comprometida.
Surgiram também, muitas pessoas interessadas no desporto paraolímpico brasileiro, ou melhor, no
dinheiro do desporto paraolímpico brasileiro. Abdicaram de suas vidas particulares e de suas
profissões para se dedicarem exclusivamente ao dinheiro paraolímpico brasileiro.
Nós, pessoas com deficiência, estamos perdendo espaços construídos com muito suor ao longo do
tempo, o Comitê infelizmente só trata dos assuntos tecnicamente e não mais com glamour, com
esperança, com determinação, com jogo de cintura. Mas sabe por que isso acontece hoje, porque o
CPB tem dinheiro, e eles acham que dinheiro pode comprar sonhos e emoções...
Um abraço paraolímpico
Anderson Lopes
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